25 fevereiro, 2026

Há algum médico na sala?

Era a noite apoteótica de final de campanha, em que este partido, que há poucos anos atrás nem existia e agora se preparava para se digladiar com gigantes, surge nas sondagens como a terceira força política.

Capitalizando com a falência neo-liberal de governos aCEOzados, que fazem brilharetes no Excel, mas que no mundo real deixam a população na pobreza, apelando às mais básicas tentações do povo, de se revoltar genericamente enquanto empunha uma mini como uma navalha.

Esta amálgama une do mais vil racista ao Quim que acha que anda tudo a mamar à conta dele, mas ao mesmo tempo está no desemprego há dois anos. Há gente que acredita que a terra é triangular e cientistas anti-vacinas. Juízes machistas e ladrões evangelistas.

Entre estes mais destacados um mar de gente descontente, da senhora da limpeza ao médio empresário, que no vazio encontraram aqui algo simples de compreender, por mais errado que esteja.


Sobe ao púlpito o grande líder.

Ainda a acabar de comer um bolo de amêndoa oferecido como doce regional por uma comitiva de militantes que veio de sul.


Começa o seu discurso com:


    - Isto não é a Cochichi…


Seguido do ruído de uma garganta arranhada. Um pedaço de bolo tinha-se soltado da cova do dente e seguido caminho pelo canal errado.

Puxa pelo copo de água, bebe um golo, mas não adianta, o ar não passa.

Da lateral o seu secretário nota que algo não está bem e logo corre para junto do líder.

Ao chegar junto a ele, dá-lhe duas palmadas nas costas, sem sucesso.

Em pânico grita:


    - Há algum médico na sala?


Do público aplausos e gritos, seguidos de silêncio ao ver a cor do líder tomar tons azulados.

Mas nenhum médico.


    - Alguém pode ajudar?


Não, ninguém se chega à frente e o líder já de joelhos com os olhos com ar de que vão saltar.


Nisto os terratriagulistas começam à pancada com os racistas.

Os cientistas anti-vacinas viram-se aos juízes machistas.

E os ladrões evangelistas começam a rezar para que o demónio abandone o corpo do líder.

Já deitado no chão, imóvel, roxo e sozinho, o coração do tão afamado líder cessa a sua função, breve caminho para quem jurava combater a corrupção com a corrupção.

E no dia da eleição, para ele a urna foi o caixão. HC